Jazzmasters Relembra Seus Primeiros Anos Na Extinta Eldorado FM. Hil St. Soul Estava Lá

Há programas que funcionam como fotografia de época. Outros viram memória afetiva. Esta edição do Jazzmasters faz as duas coisas ao mesmo tempo. Ao revisitar algumas das faixas que ajudaram a construir a identidade do programa na infelizmente extinta Eldorado FM de São Paulo, o roteiro desenha uma linha elegante entre o acid jazz europeu, o lounge sofisticado do início dos anos 2000, o soul contemporâneo e o house music com DNA jazzístico. É uma seleção que fala de legado sem cair na nostalgia fácil, com músicas que ainda soam atuais. E no meio dessa travessia aparecem novidades importantes como Hil St. Soul e Was-A-Bee, artistas que reafirmam como o soul sofisticado continua encontrando novas formas de respirar.

Foto: Incognito

A abertura é quase cinematográfica e eu adoro. Elisa Mira, com “Stay With Me Til Dawn”, transporta imediatamente para o universo do nu jazz do fim dos anos 90. Há uma textura suave, urbana e noturna na faixa que explica perfeitamente por que ela ajudou a definir os primeiros passos do Jazzmasters na Eldorado em 2004. Em seguida, o Incognito aparece no remix “Trunk Funk” dos Brand New Heavies. É o encontro de duas instituições do acid jazz britânico em um groove sofisticado de pista, com Bluey mantendo intacta sua assinatura elegante entre soul, jazz-funk e música brasileira. E então surge Hil St. Soul com “Alright”, uma das novidades mais interessantes naquele nosso primeiro programa em 2004. Hilary Mwelwa pertence à linhagem das grandes vozes britânicas do neo soul que surgiram no rastro de artistas como Soul II Soul e Incognito, mas sempre carregando personalidade própria. “Alright” traduz perfeitamente o soul refinado dos anos 2000: grooves orgânicos, vocais quentes e uma produção que envelheceu muito bem. Sua volta em 2026 com o álbum NASALIFYA mostra uma artista madura, ainda conectada à elegância emocional que sempre definiu sua música.

Foto: Zoe Ellis

Aquanote mergulha fundo na sofisticação da escola Naked Music em “Nowhere”. Gabriel Rene entendia como poucos aquela mistura de house profunda, jazz e soul atmosférico que dominou lounges e clubes sofisticados da virada do milênio. Os vocais de Zoe Ellis ajudam a criar uma faixa que parece flutuar. Logo depois, Llorca e Lady & Bird apresentam “My Precious Thing”, talvez uma das canções mais melancólicas e bonitas daquela geração francesa que aproximou música eletrônica e jazz sem perder humanidade. O francês Ludovic Llorca tinha uma visão muito musical do house, menos mecânica e mais emocional, e isso aparece claramente aqui.

Foto: Stéphane Pompougnac

Virando para o segundo set Stéphane Pompougnac vem com “Morenito”, trazendo toda a estética do Hotel Costes para o programa: luxo discreto, lounge europeu e aquela sonoridade cosmopolita que dominou hotéis boutique e pistas sofisticadas do começo dos anos 2000. Não por acaso, esses discos ajudaram a moldar a identidade sonora do Jazzmasters em seus primeiros anos. Ai mergulhamos definitivamente no universo do nu jazz europeu. Metropolitan Jazz Affair, projeto do francês Patchworks, reaparece com “Yunowhathislifeez”, uma faixa que sintetiza perfeitamente o espírito do primeiro álbum do Jazzmasters em 2004: grooves orgânicos, influência broken beat, soul e jazz eletrônico convivendo sem fronteiras.

Foto: Brenda Boykin

Na reta final Brenda Boykin abre com “Love Is In Town”, carregando toda a herança do Club des Belugas. Sua voz tem aquela combinação rara de sofisticação e espontaneidade, transitando entre Nina Simone, Ray Charles e o universo lounge europeu sem soar artificial. E então chega Koop com “Summer Sun”, clássico absoluto do nu jazz escandinavo. A voz etérea de Yukimi Nagano transformou a faixa numa espécie de hino moderno do jazz eletrônico, onde bossa, trip hop e jazz convivem em equilíbrio perfeito. Poucos discos representaram tão bem a sofisticação sonora europeia dos anos 2000 quanto o universo criado pela dupla sueca.

E pra finalizar o Jazzmasters conecta passado e presente através da elegância do groove. Was-A-Bee surgiu à época, como outra grande novidade da programação com “This Is What You Are”, faixa que apresentou ao mundo a voz monumental de Mario Biondi. Há algo profundamente clássico nessa gravação: metais quentes, batida cadenciada, clima soul-jazz e aquele vocal grave que remete imediatamente aos grandes crooners negros dos anos 60 e 70. Ao mesmo tempo, a produção mantém um refinamento contemporâneo que explica por que a música virou um clássico moderno das pistas sofisticadas.

Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.

Magnus Zingmark e Oscar Simonsson são responsáveis pela música inovadora que aparece sob o nome Koop. Inspirados principalmente por músicos de jazz, mas também aprendendo com o trabalho de artistas de hip-hop e dança, Zingmark e Simonsson formaram o grupo em meio à fértil cena do jazz sueco. Waltz for Koop, foi o álbum que validou seu estilo exploratório e contou com o talento de duas vocalistas, Cecilia Stalin e Yukimi Nagano.

Assista Summer Sun com Yukimi Nagano:

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