E lá vem mais uma edição do Jazzmasters. É uma programação que conecta diferentes gerações da black music sem perder coerência estética: do groove orgânico do Lettuce ao refinamento futurista de Jordan Rakei, passando pela elegância retrô de Kashif, Sy Smith e Brand New Heavies. Mas o programa também aponta para o futuro, especialmente com os lançamentos de Elmiene, Sekou, Jalen Ngonda e, principalmente, Otis Kane, um artista que entende que sofisticação não precisa de exagero. Tudo aqui gira em torno de musicalidade, textura e sentimento. Um cardápio completo, como diria nosso DJ Modell.

Lettuce abre o programa revisitando ‘Risin’ To The Top’, clássico absoluto de Keni Burke que atravessou décadas graças ao hip-hop. A banda americana não tenta reinventar a roda: mantém o espírito sedutor do original enquanto adiciona musculatura funk, baixo elástico e aquela cozinha impecável que transformou o grupo em referência do groove contemporâneo. Logo depois, Elmiene surge como uma das vozes mais interessantes do novo R&B britânico. ‘Reclusive’ tem algo raro hoje: vulnerabilidade sem caricatura. Sua interpretação soa íntima, quase confessional, como alguém tentando sobreviver ao excesso de exposição da era digital sem perder a própria identidade. Já Sekou confirma por que vem sendo tratado como uma promessa de peso da soul music inglesa. ‘Catching Bodies’ mistura sofisticação pop, metais quentes e uma entrega vocal madura para um artista de apenas 21 anos. Há ecos de Michael Kiwanuka, D’Angelo e até do romantismo urbano do início dos anos 80, mas com linguagem totalmente atual.

Jalen Ngonda mantém viva a tradição do soul analógico com ‘Hang It On The Shelf’, faixa curta, direta e emocionalmente honesta. Sua ligação com o universo Daptone não é estética vazia: ele realmente escreve e canta como alguém que absorveu Marvin Gaye, Al Green e Curtis Mayfield sem virar pastiche. Na sequência, Jordan Rakei e Tom McFarland, do Jungle, criam em ‘Easy To Love’ uma ponte elegante entre jazz moderno, broken beat e soul eletrônico. O EP gravado no Abbey Road tem clima de sessão entre amigos talentosos, sem pressão comercial, e isso aparece na fluidez da música. Mas o grande destaque deste bloco é Otis Kane. ‘Let Me Love You’ confirma a ascensão silenciosa de um artista que entende o valor da contenção. Kane canta como quem não precisa provar nada: timbre quente, produção refinada, arranjo limpo e uma maturidade rara no R&B atual, frequentemente excessivo. Um dos lançamentos mais fortes e elegantes do programa.

Kashif reaparece lembrando por que foi um dos arquitetos do R&B moderno dos anos 80. ‘Help Yourself To My Love’, com La La, é puro luxo analógico: sintetizadores macios, bateria eletrônica elegante e melodias que ajudaram a moldar boa parte da soul music contemporânea. A história pessoal de Kashif marcada por abandono, superação e autodidatismo musical torna sua sofisticação ainda mais impressionante. Depois, o projeto BYAMM traz ‘Dance Floor Therapy’, um manifesto dançante contra a desumanização criativa da era da inteligência artificial. O interessante é que o discurso vem acompanhado de música de verdade: grooves latinos, funk retrô, teclados calorosos e vocais cheios de alma. Peyton fecha o bloco mergulhando no soulful house clássico. ‘Need To Feel Wanted’ carrega aquele espírito gospel-dançante herdado de Frankie Knuckles, onde a pista sempre funciona para darmos vazão a todos os sentimentos.

O Brand New Heavies continua sendo uma instituição do acid jazz britânico. ‘On The One’ mostra a banda confortável em seu território: grooves sólidos, vocais elegantes e arranjos que transitam entre disco, funk e soul sem esforço. Sy Smith, ao lado de Rahsaan Patterson, mergulha fundo no imaginário clubber dos anos 80 em ‘Nights (Feel Like Gettin’ Down)’. O resultado é irresistível: synths brilhantes, romantismo noturno e uma reverência inteligente ao pós-disco sem cair na caricatura revivalista. Encerrando o programa, Kenny Dope revisita os Jackson 5 e mostra mais uma vez como o catálogo da Motown dialoga naturalmente com a cultura DJ. ‘It’s Great To Be Here’ ganha nova pulsação sem perder a inocência grooveada da gravação original. Um fechamento perfeito e atemporal.
Ainda não ouviu? Ouça o Jazzmasters aqui.
No álbum “Fast And Curious” de 2013, Sy Smith e Rahsaan Patterson, recriaram uma das mais belas músicas dos anos 80, de Billy Ocean.
A química entre os dois em ‘Nights (Feel Like Gettin’ Down)’ dá uma sensação de vida noturna nova-iorquina em produção impecável de Mark de Clive-Lowe, elogiado por proporcionar um som dance moderno e cheio de alma nesta versão, que mantém uma linha de baixo funky e arranjos de sintetizador inteligentes.
Confira: